Prazer e luxo à mesa

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Se a gastronomia se tornou uma área do conhecimento humano realmente pop nas últimas décadas, o interesse por ela remonta aos tempos em que a busca pela satisfação no ato de comer e pelo refinamento na produção dos alimentos era um desejo que começava a ser alcançado.

Embora os restaurantes de alto padrão tornem cada vez mais evidente a aproximação entre a gastronomia e o luxo, essa relação vem de muito antes, de um tempo em que os banquetes eram usados para honrar e agradecer aos deuses. Essas celebrações contavam com a melhor comida e bebida e também eram palcos de danças e comemorações diversas. Já naquele tempo, as sociedades utilizavam-se dos seus produtos de maior requinte para celebrar e retribuir.

No livro O Luxo Eterno, os autores Gilles Lipovetsky e Elyette Roux descrevem que para aqueles povos “honrar os deuses é garantir-lhes uma vida luxuosa, preparar-lhes banquetes festivos, refeições servidas em baixelas de ouro e prata, fazer-lhes oferendas de joias preciosas e de vestimentas de aparatos”.

As inovações dos chefs de cuisine na montagem dos seus menus, a atenção especial na escolha dos ingredientes das refeições e o apuro técnico e artístico na produção dos pratos ajudaram a consolidar a ponte que uniu definitivamente às artes culinárias ao segmento premium. Não há como questionar a importância da gastronomia no contexto social. Muitos dos valores e princípios de uma nação estão presentes também nos seus pratos mais tradicionais.

O ato de se alimentar transcende a necessidade básica do ser humano, ou seja, vai muito mais além da necessidade de retirar dos alimentos energia para viver. A gastronomia propõe a utilização de ingredientes que nutrem também a alma e promovem um contato das pessoas com sensações únicas e particulares.

Um bom exemplo desses ingredientes são as trufas brancas, uma iguaria muito apreciada e que faz parte do cardápio de alguns dos restaurantes mais luxuosos do mundo. Encontradas somente em algumas regiões da Itália e da Croácia, as trufas brancas basicamente são cogumelos com um aroma muito particular e servem para realçar o sabor ou dar um toque especial a um prato. Em algumas localidades italianas, devido a sua raridade, as trufas são encontradas com a ajuda do faro de cachorros treinados. Esse ritual insólito se tornou atração turística e na época da temporada de colheita é possível ver turistas do mundo inteiro correndo atrás dessas pequenas joias da culinária.

Há algumas décadas o luxo gastronômico se manifestava na realização de uma refeição em um restaurante indicado no Guia Michelin. Com o passar dos anos, tanto os chefs quanto os apreciadores da alta gastronomia passaram a valorizar ainda mais essa importante manifestação cultural.

O deleite gastronômico atual está muito mais ligado à experiência e às sensações do que, unicamente, ao glamour de um restaurante. O refinamento e a elegância à mesa, hoje, é sentir-se bem com aquilo que se pede. Se o prato vier acompanhado com um pouco de história, uma dose de conhecimento e algumas pitadas de felicidade ainda melhor. Afinal de contas, não há nada mais luxuoso do que ser feliz.

Crédito da imagem: Reprodução.

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