O grito retumbante de “Reset – O Novo Balé da Ópera de Paris”

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Um, dois, três, quatro… cinco, seis, sete e oito. Se você já fez aulas de dança pelo menos uma vez na vida, com certeza vai reconhecer esta contagem. No Ballet, a contagem dos tempos musicais faz com que os bailarinos sigam o ritmo da música, ajudando a padronizar os movimentos. Confesso que quando penso em Ballet, a palavra “padrão” me vem à mente. Logo imagino aquele grupo de bailarinas em seus tutus dançando de forma tão sincronizada que chega a parecer desumano. Em “Reset – O Novo Balé da Ópera de Paris”, que estreia nesta quinta-feira, os diretores Thierry Demaizière e Alban Teurlai fazem o impressionante trabalho de nos mostrar a realidade por trás das coreografias impecáveis do balé francês. O documentário acompanha o coreógrafo Benjamin Millepied na criação de seu primeiro espetáculo como Diretor de Dança da Ópera Nacional de Paris. De repente, é possível descobrir que existe alma no balé clássico: o processo criativo de Benjamin inspira e expira humanidade e paixão pela dança. Desde a primeira vez em que ouve a música até o ensaio da coreografia, Benjamin demonstra que sem prazer não é possível dançar. A cada movimento acompanhado pela câmera, o espectador é levado à outra atmosfera, onde a tradição briga com o instinto humano.

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O documentário retrata em 110 minutos como o coreógrafo abala a instituição de balé mais respeitada da França. Ex-primeiro bailarino do New York City Ballet e atual coreógrafo do L.A. Dance Project, Benjamin tinha apenas 33 minutos para apresentar sua criação. A vivência nos Estados Unidos e seu relacionamento com a dança desde a infância contribuíram para que ele chegasse à direção da ópera com uma bagagem contemporânea. Sua primeira decisão como diretor foi substituir o piso de tábuas por um piso anti-impacto para evitar que os bailarinos tivessem lesões. Preocupado com o futuro e a carreira dos jovens, Benjamin Millepied criou uma unidade de saúde para os alunos. A Ópera de Paris experimentou, mesmo que por pouco tempo, o que é democracia. A luta continuou com a decisão de não escolher nenhuma estrela ou bailarino principal para fazer parte de sua obra. Entre cenas de dança e flashbacks, o público é chamado para ensaiar e fazer parte da rotina opressiva das academias francesas. A busca pela perfeição criou uma bolha ao redor deste universo, onde apenas jovens esguias e brancas ganhavam destaque. Benjamin Millepied chega à instituição para quebrar padrões e lutar a favor de um balé que pulsa e demonstra cada um de seus sentimentos por meio da dança.

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A edição do filme nos ajuda a compreender a luta interior de Benjamin frente às regras e tradições da instituição. Sua criatividade e energia revelam uma nova forma de ensinar e lidar com os bailarinos. Benjamin Millepied tinha um único objetivo claramente expresso no filme: renovar o balé desde o ensaio dos alunos até o processo criativo do espetáculo. O coreógrafo faz muito além que apenas treinar sua equipe: Benjamin se relaciona com eles, quebrando barreiras na tentativa de criar uma nova geração de bailarinos franceses. O amor pela dança é transmitido em seu espetáculo, simbolicamente intitulado “Clear, Loud, Bright, Forward”. Ao fim da apresentação é possível sentir que pela primeira vez em muito tempo aqueles bailarinos sentiram-se novamente seres humanos. “Reset – O Novo Balé da Ópera de Paris” é o grito de socorro de Benjamin contra o balé elitista e sem emoção das academias clássicas em todo o mundo, grito que ressoou nos escuros corredores da Ópera de Paris por pouquíssimo tempo.

Confira abaixo o trailer.

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