O Brasil como Inspiração

Imagens de Alter do Chão. Fotografia de Sergio Fahrer.

“No caminho do aeroporto para casa, Yaqub reconheceu um pedaço da infância (…), se emocionou com a visão dos barcos coloridos, atracados às margens dos igarapés por onde ele, o irmão e o pai haviam navegado numa canoa coberta de palha. Yaqub olhou para o pai e apenas balbuciou sons embaralhados.” (Trecho do livro Dois Irmãos, de Milton Hatoum).

A imagem construída pelo escritor nos mostra um personagem que quase não consegue falar diante da força de suas lembranças da infância, numa Manaus à beira do Rio Negro. De maneira semelhante eu me senti, ainda que não tenha vivido naquela região maravilhosa de um Brasil ainda desconhecido, quando estive em Alter do Chão, no Pará. É um lugarejo imerso na atmosfera do Rio Tapajós, bem perto de seu encontro com o Rio Amazonas. Ali também os igarapés, os barcos coloridos, a praia de água doce, trabalhadores intimamente ligados à natureza.

Era 2004, eu cheguei naquele lugar a convite do SEBRAE. Não tinha ideia do que iria encontrar. Sabia que estava ali para conhecer uma comunidade de artesãos locais, para compartilhar com eles de meus conhecimentos a respeito do corte e uso da madeira, mais especificamente sobre como os artesãos poderiam extrair dela o desenho das “catedrais” das toras. A madeira, no seu corte mais bonito e com pouco desperdício, poderia interessar a eles na confecção de suas bandejas, colheres de pau e fruteiras, como sempre interessou a mim, ao pensar nos móveis.

Era preciso pegar uma voadeira, para chegar ao lugar em que vivem os artesãos. A voadeira é um tipo de embarcação muito especial, feita da tora da árvore cavada até virar canoa. A madeira mais utilizada é a muiracatiara-rajada, cujos desenhos sugerem grossas pinceladas de tons marrom escuros sobre os mais claros e avermelhados, como se alguém houvesse desenhado dentro da árvore.

Eu, na voadeira de muiracatiara-rajada, sobre o Rio Tapajós, que é de águas verdes cristalinas, fiquei sem fala, como o personagem de Milton Hatoum. O contraste daquelas cores, a proximidade com a natureza… assim que chegamos, agarrei um guardanapo que estava à mão e fiz, nele mesmo, um desenho: uma mesa. Água cristalina, madeira desenhada, rio, céu, os trabalhadores… o turbilhão de sensações tomou forma, para mim, nessa mesa que, obviamente, precisava ter o nome de TAPAJÓS.

Nem sempre o desenho vem com tamanha inspiração, nem sempre a natureza e o mundo nos presenteiam atravessando nossa sensibilidade. Mas ali, felizmente, isso aconteceu. A Mesa Tapajós é uma das peças mais importantes na minha trajetória justamente por esse motivo. A pressa do rascunho no guardanapo, diante da beleza de um país ainda desconhecido da maioria de nós, fez valer o que acredito ser uma vocação.

Ao escrever essa coluna, revivo a experiência. As palavras são difíceis para dar conta. Ainda bem que a mesa pode falar por si.

A mesa Tapajós

A mesa Tapajós

A Mesa Tapajós na capa da revista The Robb Report International Edition.

A Mesa Tapajós na capa da revista The Robb Report International Edition.

A Mesa Tapajós na matéria do Financial Times, de Londres.

A Mesa Tapajós na matéria do Financial Times, de Londres.

A Mesa Tapajós na casa de Stevie Wozniac, na paria de Malibu, Califórnia.

A Mesa Tapajós na casa de Stevie Wozniac, na paria de Malibu, Califórnia.

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